Apple pie e Alka Seltzer
Corria o ano de 1991. Apesar de previsível, a notícia da morte do tio Américo veio abalar-nos a todos atirando-nos para aquele lugar onde a tristeza pela perda de um ente querido se debate com a confrontação do nosso próprio medo do implacável e inevitável fim. Pelo menos comigo foi assim.
Lembro-me de vê-lo de mãos postas sobre o peito. Devido aos seus quase dois metros de altura tiveram de lhe flectir ligeiramente as pernas para que coubesse no esquife. A sua estatura acima da média conferira-lhe essa desvantagem na sua derradeira hora. Se bem que – lembro-me de pensar - que desvantagem pode haver em passar para o além com as pernas ligeiramente flectidas? Depois ocorreu-me uma piada mórbida qualquer que reprimi de imediato olhando em redor com receio de que os meus pensamentos se tivessem feito ouvir.
A morte é sempre um espectáculo que nos deprime e ao mesmo tempo nos compraz – “antes ele do que eu”. As carpideiras que acompanharam o velório e o funeral eram disso o exemplo mais flagrante. O “que Deus o tenha em descanso” da D. Rosália, ilustrado por um breve, quase imperceptível, desviar do olhar, traduzia o seu mais íntimo “espero poder continuar por cá mais uns anos”. Já o Sr. Horácio da taberna, de ar pesaroso e consternado acariciava o bigode e pensava para com os seus velhos botões que este era um freguês que não voltaria a ver no seu estabelecimento.
Grata pela companhia a viúva, Marília, que durante muitos anos fora emigrante em Londres, trouxera de casa a sua famosa apple pie que, previdente, havia preparado para forrar os estômagos dos veladores mais estóicos que permanecessem no local durante a noite. - Saber receber é uma virtude, saber retribuir é virtude ainda maior – Dizia.
A tarte, servida com uma calda de leite evaporado, era realmente deliciosa e mereceu os mais gulosos elogios.
No dia seguinte chegaram as irmãs do defunto e vinham claramente determinadas a tomar nas mãos o curso dos acontecimentos. Fiquei estupefacta ao ver como uma delas se aproximou displicentemente da tia Marília pretendendo saber a que horas chegava o pároco pois queria recomendar umas leituras para as exéquias, ao passo que a outra se debruçou teatralmente sobre a urna num pranto que mais parecia que lhe arrancavam as entranhas a sangue frio.
Assim foi durante todo o cerimonial. Lembro-me que procurei saber os nomes daquelas criaturas irreais, mas francamente não os retive. Optei por baptizá-las à minha maneira: Araci, a rainha do drama e Juraci, a beata frígida.
Já em casa, findo que foi o ritual fúnebre e iniciado o recolhimento, fui dar com a tia Marília na cozinha, de copo na mão, observando atentamente o borbulhar de uma pastilha Alka Seltzer que lá dentro se desfazia.
Pousei-lhe a mão no ombro – Então tia, sente-se bem?
Mirou-me por instantes em silêncio com os olhos vermelhos de tanto chorar, depois conseguiu esboçar um sorriso ao aperceber-se da caricatura e disse:
- O teu tio dizia sempre que as irmãs lhe faziam azia!
Abraçámo-nos e não sei se rimos ou se chorámos.
Pedra Pomes
Lembro-me de vê-lo de mãos postas sobre o peito. Devido aos seus quase dois metros de altura tiveram de lhe flectir ligeiramente as pernas para que coubesse no esquife. A sua estatura acima da média conferira-lhe essa desvantagem na sua derradeira hora. Se bem que – lembro-me de pensar - que desvantagem pode haver em passar para o além com as pernas ligeiramente flectidas? Depois ocorreu-me uma piada mórbida qualquer que reprimi de imediato olhando em redor com receio de que os meus pensamentos se tivessem feito ouvir.
A morte é sempre um espectáculo que nos deprime e ao mesmo tempo nos compraz – “antes ele do que eu”. As carpideiras que acompanharam o velório e o funeral eram disso o exemplo mais flagrante. O “que Deus o tenha em descanso” da D. Rosália, ilustrado por um breve, quase imperceptível, desviar do olhar, traduzia o seu mais íntimo “espero poder continuar por cá mais uns anos”. Já o Sr. Horácio da taberna, de ar pesaroso e consternado acariciava o bigode e pensava para com os seus velhos botões que este era um freguês que não voltaria a ver no seu estabelecimento.
Grata pela companhia a viúva, Marília, que durante muitos anos fora emigrante em Londres, trouxera de casa a sua famosa apple pie que, previdente, havia preparado para forrar os estômagos dos veladores mais estóicos que permanecessem no local durante a noite. - Saber receber é uma virtude, saber retribuir é virtude ainda maior – Dizia.
A tarte, servida com uma calda de leite evaporado, era realmente deliciosa e mereceu os mais gulosos elogios.
No dia seguinte chegaram as irmãs do defunto e vinham claramente determinadas a tomar nas mãos o curso dos acontecimentos. Fiquei estupefacta ao ver como uma delas se aproximou displicentemente da tia Marília pretendendo saber a que horas chegava o pároco pois queria recomendar umas leituras para as exéquias, ao passo que a outra se debruçou teatralmente sobre a urna num pranto que mais parecia que lhe arrancavam as entranhas a sangue frio.
Assim foi durante todo o cerimonial. Lembro-me que procurei saber os nomes daquelas criaturas irreais, mas francamente não os retive. Optei por baptizá-las à minha maneira: Araci, a rainha do drama e Juraci, a beata frígida.
Já em casa, findo que foi o ritual fúnebre e iniciado o recolhimento, fui dar com a tia Marília na cozinha, de copo na mão, observando atentamente o borbulhar de uma pastilha Alka Seltzer que lá dentro se desfazia.
Pousei-lhe a mão no ombro – Então tia, sente-se bem?
Mirou-me por instantes em silêncio com os olhos vermelhos de tanto chorar, depois conseguiu esboçar um sorriso ao aperceber-se da caricatura e disse:
- O teu tio dizia sempre que as irmãs lhe faziam azia!
Abraçámo-nos e não sei se rimos ou se chorámos.
Pedra Pomes


8 Comments:
Li tudo o que escreveste, de baixo para cima, cronologicamente, como se impõe.
Querida Pedra Pomes: eu não te conhecia, nem te reconheço no outro blog da espuma. Agora sim, és tu, a que eu já conheço um bocadinho e espero vir a conhecer cada vez melhor.
Fizeste bem em partir sem projecto. Voa em liberdade para o horizonte que te der na real gana.
Adorei todos os teus posts, que foram crescendo até este.
Parabéns. Escreves bem e ler-te é uma delícia. Fico, desde já, inscrito como teu admirador.
Beijo.
Nilson, o teu comentário deixou-me sem palavras, obrigada, de coração. :) Um beijinho
Pois, nestes episódios do dia a dia (sim, que a morte já faz parte do dia a dia), nos vamos conhecendo e reconhecendo.
Arrepiam-me as carpideiras, sabes? Parece que querem para si toda a despesa da dor como se os outros não tivessem direito a sentir.
Beijnho, Pedrinha :-)
Yard, por vezes sofre mais quem não chora não é?
um beijinho
Com pedras destas, não preciso de apanhar outras...
Sê muito “re-bem-vinda” à blogosfera, cara Pedra! Como pudeste ficar tanto tempo sem partilhar coisas como a do presente do pai e todas as outras que escreveste até agora???
Não fossem as saudades e não te perdoaria... ;-)
Tb li tudo, de baixo para cima, como se impõe! E a partir de hoje não vou deixar de passar por aqui.
A blogosfera ficou bem mais rica agora!
Beijos,
Isa
Isa, é uma alegria estar de volta!É uma alegria ainda maior ser assim recebida, obrigada pelas tuas palavras, serás sempre bem vinda no meu novo cantinho e já tenho aqui ao lado uma ponte de pedra para o teu. :) um beijinho e obrigada pelo destaque!;)
Fabuloso! Com uma tia dessas quem é que quer as perúas? ;)
Tocou fundo este texto, quantas vezes não assisti a esta vergonha que é dor fingida, o interesse escondido. Felizmente para a tua tia que pôde projectar a raiva nas perúas, pelo menos isso, estou certo que o teu tio aprovaria!
Vi que ficaste mesmo sem palavras (ainda não escreveste mais nada...).
Mas o meu objectivo não era esse. Era querer ver mais de ti.
Beijo.
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