Sexta-feira, Abril 08, 2005

O Presente do pai

O lugarejo tinha um aspecto bastante mais desolador naquela altura do ano. A fiada de casas cal e azul suspirava de solidão à beira daquela estrada perdida entre o cinzento do céu e o castanho da terra. Nem uma alma se via. O fim de tarde melancólico prenunciava uma noite vazia, silenciosa.
Inspirando o ar húmido e o cheiro que deita a erva depois do aguaceiro e que sempre lhe lembrava o colo da avó Jacinta, vá-se lá saber porquê, Rogério apeou-se da motorizada velha e barulhenta do seu pai.
Em dias como aquele o regresso a casa depois da escola representava para ele uma quente sensação de aconchego. Era uma família normal, se é que há famílias normais. Gente humilde, muito estimada pela pequeníssima comunidade. Os seus pais eram afectuosos e o seu lar, embora modesto, constituía o seu melhor refúgio.
Naquela noite sabia que não haveria frio pois o braseiro crepitava alegremente. Não haveria fome porque na mesa estaria a sopa de agrião que tanto apreciava. Não haveria sequer medo do escuro porque a pequena candeia iluminar-lhe-ia o sono. Naquela noite Rogério sentia-se especial e foi sentindo-se assim que recebeu das mãos do pai o pacote que lhe era destinado.
Seus olhos brilhavam tanto que dir-se-ia que as lágrimas iriam saltar-lhe a qualquer momento. Com uma certa urgência e ao mesmo tempo um certo desejo de prolongar um pouco mais aquele momento manuseou o pacote procurando a melhor extremidade para o abrir. De dentro retirou um maço de folhas de papel – a sua inscrição na Filarmónica de Vila Pequena.
Iria ser músico. Sim, iria tocar flauta e clarinete e trompete ou trombone. Concertina e acordeão e ferrinhos ou bombo. Mas mais importante que tudo isso, ficaria mais próximo do seu sonho, o magnífico piano de cauda. Havia já muito tempo que o venerava. Criara por ele uma secreta adoração que cultivava nas tardes recreativas de domingo. Sem nunca se aproximar demasiado olhava-o de soslaio, escondia-se ao dobrar de uma ombreira e ficava a escutá-lo mergulhado em deslumbre.
Agora iria aproximar-se com respeito, saudá-lo com toda a deferência de que fosse capaz, depois sentar-se-ia à sua frente e admirar-lhe-ia a elegância. Sabia que ele iria gostar de si e que juntos inventariam histórias maravilhosas que contariam melodicamente a quem quisesse ouvi-las. Mal podia esperar pelo seu primeiro dia na Filarmónica.
Embrenhado na antecipação Rogério só conseguiu sorrir e, como se caminhasse sobre nuvens, foi dedilhando suavemente o ar à sua frente a fechar-se no seu quarto. Pelo caminho ainda ouviu o pai dizer-lhe ternamente:
- Feliz aniversário meu filho.

Pedra Pomes

3 Comments:

Blogger Yardbird said...

Já tinha saudades desta prosa linda e leve.
Que prazer que tenho em rever-te :)

22:00  
Anonymous Pedra Pomes said...

Yardy é sempre um prazer ter-te por cá :) obrigada e um beijinho

11:12  
Blogger João Mãos de Tesoura said...

Eu também tive o mesmo sonho! Treinei, toquei, chequei mesmo ao recital... mas faltava-me o génio! :)
Gosto desta escrita, sente-se, é viva!

18:10  

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